Estudo etnobotânico do uso de Bixa orellana L. (urucum) por agricultores do Extremo Sul da Bahia

ARTÍCULO ORIGINAL

 

Estudo etnobotânico do uso de Bixa orellana L. (urucum) por agricultores do Extremo Sul da Bahia

 

Estudio etnobotánico del uso de Bixaorellana L. (achiote) por los agricultores del extremo sur de Bahía

 

Ethnobotanical study of the use of Bixa orellana L. (achiote) by farmers from the extreme south of Bahia

 

 

Luciane Manganelli1*
Yago Soares Fonseca1
Natanni Amaral Ledo1
Grasiely Faccin Borges1
Gabriela Alves Ramos3
Bruna Alves da Silva1
Lucas Monteiro Barbosa2

1 Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Teixeira de Freitas, Brasil.
2 Museu Nacional da universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Brasil.
3 Universidade do Vale do Rio Doce (UNIVALE), Brasil.

 

 


RESUMO

Introdução: As plantas sempre foram utilizadas como fonte de alimentação e saúde para o homem, onde o saber tradicional sobre o uso terapêutico pode contribuir para pesquisas de novos fitoterápicos e fármacos. Plantas medicinais são importantes alternativas para cura de doenças nas populações indígenas, quilombolas e das comunidades rurais orientada por uma série de conhecimentos acumulados mediante a relação direta dos seus membros com o meio ambiente e da difusão de informações tendo como influência o uso tradicional transmitido oralmente entre diferentes gerações. Na região de Teixeira de Freitas, extremo sul baiano, percebe-se o grande cultivo, comercialização e uso da Bixaorellana L. (Bixaxeae) pelos moradores das zonas rurais, devido ao seu baixo custo e fácil acesso.
Objetivo: Realizar um estudo etnobotânico do uso da B. orellana por agricultores do extremo sul baiano.
Métodos: Foi realizada umapesquisa etnográfica qualitativa e exploratória com 30 famílias de agricultores residentes nas margens da rodovia BR-101 entre os quilômetros 852 a 876, a fim de caracterizar o perfil dos agricultores da região e a forma de uso da B. orellana cultivada.
Resultados: No presente estudo 28 agricultores relataram utilizar a B. orellana na alimentação e 08 (26 %) utilizam como medicamento. Nota-se o uso medicinal da planta nos agricultores mais velhos, onde a finalidade terapêutica relatada inclui o uso como antitussígeno, antigripal, antilipêmico, antiglicemiante, para o tratamento de anemias, bronquites e gastrites.
Conclusão: O uso medicinal da B. orellana faz parte da cultura popular entre os agricultores do extremo sul baiano. Os apocarotenos bixina, isobixina e norbixina presentes na planta podem contribuir para o efeito medicinal, e sugere-se o desenvolvimento de novas pesquisas a fim de testar os efeitos farmacológicos da B. orellana.

Palavras-chave: Etnobotânica; Bixa orellana; plantas medicinais; medicina tradicional.


RESUMEN

Introducción: Las plantas siempre fueron utilizadas como fuente de alimentación y salud para el hombre, y el conocimiento popular sobre el uso terapéutico contribuye a la investigación de nuevos fitoterápicos y fármacos. Las plantas medicinales son importantes alternativas para curar diferentes enfermedades en las poblaciones indígenas, en las comunidades de descendientes de esclavos africanos y en las comunidades rurales gracias a la gran cantidad de conocimientos acumulados mediante la relación directa de sus miembros con el medio ambiente y con el uso tradicional de estas plantas transmitido oralmente de generación en generación. En la región de Teixeira de Freitas, extremo sur de Bahía, se observa el amplio cultivo, la comercialización y el uso de Bixa orellana L. (Bixaxeae) por los habitantes de las zonas rurales debido a su bajo costo y al fácil acceso a esta planta.
Objetivo: Realizar un estudio etnobotánico del uso de B. orellana por los agricultores del extremo sur bahiano.
Métodos: Se realizó una investigación etnográfica cualitativa y exploratoria con 30 familias de agricultores residentes en los márgenes de la carretera BR-101 entre los kilómetros 852 a 876 a fin de describir a los agricultores de la región y la forma en que usan B. orellana.
Resultados: En este estudio, 28 agricultores informaron que utilizan B. orellana en la alimentación y 8 (26 %) utilizan esta planta como medicamento. Se observó que los agricultores más viejos usan la planta como antitusivo, antigripal, antilipémico, antiglucemiante y para el tratamiento de anemias, bronquitis y gastritis.
Conclusión: El uso medicinal de B. orellana forma parte de la cultura popular entre los agricultores del extremo sur bahiano. Los compuestos apocarotenosla bixina, isobixina y norbixina presentes en la planta pueden contribuir a su efecto medicinal. Se sugiere llevar a cabo nuevas investigaciones para probar los efectos farmacológicos de B. orellana.

Palabras clave: Bixa orellana L.; etnobotánica; plantas medicinales; medicina tradicional.


ABSTRACT

Introduction: People have always used plants as a source of food and health, and common knowledge about their therapeutic use contributes to research about new phytotherapies and phytomedicines. Medicinal plants are important alternatives to cure a variety of diseases in aboriginal settlements, communities descended from African slaves, and rural communities, thanks to a large amount of knowledge accumulated by the direct relationship of their members with the environment and the traditional use of these plants handed down orally from generation to generation. The rural areas of the region of Teixeira de Freitas, extreme south of Bahia, stand out for the broad cultivation, sale and use of Bixa orellana L. (Bixaxeae), due to the low cost of this plant and its easy access.
Objective: Carry out an ethnobotanical study of the use of B. orellana by farmers from the extreme south of Bahia.
Methods: An ethnographic qualitative exploratory study was conducted of 30 farmer families settled on either side of the BR-101 highway between kilometers 852 and 876 with the purpose of describing the region's farmers and the ways in which they use B. orellana.
Results: During the study 28 farmers reported that they use B. orellana as food, and 8 (26 %) for healing. It was found that the eldest farmers use the plant as antitussive, antiflu, antihyperlipidemic, antiglycemic, and to treat anemia, bronchitis and gastritis.
Conclusion: Medicinal use of B. orellana is part of the folk culture of farmers from the extreme south of Bahia. The compounds apocarotenoid bixin, isobixin and norbixin present in the plant may contribute to its medicinal effect. It is suggested that further research is conducted to test the pharmacological effects of B. orellana.

Key words: Bixa orellana L., ethnobotany, medicinal plants, traditional medicine.


 

 

INTRODUÇÃO

Desde a antiguidade o homem busca no reino vegetal recursos para a sua sobrevivência, alimentação e cura de suas doenças. O saber tradicional sobre o emprego terapêutico de plantas que, por muito tempo, se imaginou distante da lógica científica, agora passa a ter grande valor para o desenvolvimento de fármacos convencionais e medicamentos fitoterápicos.1 Dessa forma, a incorporação do conhecimento científico serviu não só para validar essa prática milenar de base intuitiva, como também para gerar produtos medicamentosos com características mais apropriadas para empregos em humanos. Assim, estudos científicos comprovaram o uso popular de uma série de plantas medicinais que, atualmente, fazem parte do arsenal terapêutico.2-3 Milhares de princípios ativos já foram isolados de extratos vegetais e elucidados estruturalmente, estando muitos deles relacionados com a atividade biológica das plantas. O conhecimento de substâncias bioativas, responsáveis pelas propriedades terapêuticas das plantas medicinais, viabiliza o desenvolvimento de novos fármacos e a produção de extratos padronizados, com garantia de eficácia e segurança.²

Segundo Ferreira e Pinto4 na contemporaneidade utiliza-se a fitoterapia de forma mais abrasiva devido às recentes descobertas científicas e os avanços tecnológicos neste campo. O uso de medicamentos é muito recente e sua comprovação por testes clínicos é ainda mais recente. Dessa maneira o emprego terapêutico das plantas medicinais utilizado de forma empírica, assume grande importância na atualidade, visto que contribuiu para o desenvolvimento de fármacos convencionais, medicamentos fitoterápicos e alguns remédios.

A etnobotânica, historicamente, tem desempenhado um papel vital na compreensão da humanidade sobre a relação entre as pessoas e o ambiente biológico, abrangendo as espécies selvagens e domesticadas, e na atualidade continua a ser um campo de rápido crescimento de pesquisa.4

A utilização de plantas medicinais por populações rurais é orientada por uma série de conhecimentos acumulados mediante a relação direta dos seus membros com o meio ambiente e da difusão de informações tendo como influência o uso tradicional transmitido oralmente entre diferentes gerações.5 Na região de Teixeira de Freitas, extremo sul baiano percebe-se uma grande comercialização e utilização de Bixa orellana L. (Bixaceae) pelos moradores, sobretudo das zonas rurais.

No Brasil, a cultura e produção de B. orellana destina-se à comercialização dos grãos moídos para a produção de colorífico alimentício e para a produção dos corantes naturais denominados bixina, norbixina e nobixato, e o mercado de urucum corresponde a aproximadamente 90 % do total do consumo de corantes naturais no país e em torno de 70 % de corantes naturais no mundo seguindo uma tendência mundial de busca por alimentos saudáveis.6 Nas regiões pobres, a B. orellana é muito utilizada justamente pelo seu fácil acesso. Em muitos casos constitui uma importante parcela da renda familiar de moradores do interior que vendem seus produtos em feiras e mercados.7

A B. orellana, é a única espécie do gênero Bixa, sendo nativa da América tropical. No Brasil é comumente encontrada como planta ornamental8. Ela é um arbusto de 3-5 m de copa baixa e densa, com tronco de 15-25 cm de diâmetro, revestida por casca com ritidoma reticulado. Folhas simples, pecioladas, membranáceas, glabras, de 8-11 cm de comprimento. Flores grandes de cor rósea, reunidas em panículas terminais. Os frutos são cápsulas arredondadas, com superfície de cor vermelho-rosada ou amarelada, revestidas de espinhos moles, contendo muitas sementes duras e cobertas por arilo vermelho que quando se abrem revelam pequenas sementes dispostas em série, de trinta a cinquenta por fruto, envoltas em uma cobertura carnuda também vermelha. É uma planta perenifólia, heliófita, pioneira, produz anualmente grande quantidade de sementes viáveis, florescendo principalmente na primavera e início do verão.9

Conhecida também como achiote, utilizada inicialmente pelos índios brasileiros para pinturas, culinária e para saúde, possui rico depósito de compostos bioativos como saponinas, alcalóides e flavonóides, aos quais são atribuídas propriedades fisiológicas entre as quais: antimicrobianos, antiinflamatórios, antialérgico, antiviral, anticancerígeno, antioxidante, entre outros.10 Na literatura são disponíveis poucos trabalhos nos últimos 5 anos sobre o uso medicinal da B. orellana, fato este que contribui para a necessidade de estudos na atualidade sobre o tema.

Neste contexto foi proposto um estudo etnobotânico sobre a forma de utilização da B. orellana pelos agricultores do Extremo Sul Baiano.

 

MÉTODOS

O estudo foi realizado através de pesquisa etnográfica de abordagem qualitativa e exploratória com 30 famílias de agricultores residentes às margens da BR-101, do Km 852 ao 876 (latitude 17º52'24,32" a 17º34'86,70"; e longitude 39°70'77,79" a 39°62'95,13"), entre os municípios baianos de Teixeira de Freitas e Itamarajú (Figura). O local foi escolhido por se tratar de área de grande cultivo de B. orellana através da agricultura familiar.

Para a coleta das informações sobre as diversas formas de uso de B. ollerana como medicinal, na pecuária, alimentícia, estética e outros, foi utilizado questionário semi-estruturado, onde foram coletadas informações acerca dos agricultores quanto ao gênero, idade e escolaridade, levando-se em consideração a parte do vegetal utilizada, sendo as folhas e as sementes, a posologia, que varia de acordo a necessidade do tratamento, e o modo de preparo, sendo por decocção, infusão e fervura. O material botânico foi coletado e identificado como B. orellana L. da família Bixaceae, se tratando de um arbusto de aproximadamente 2,5 metros de altura com folhas discolores, frutos avermelhados quando maduros e utilizados de forma medicinal e condimentar, um espécime do espécime repousa no Herbário da Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC, na cidade de Ilhéus - BA, Brasil, identificado com o número HUESC 23504.

Os dados coletados foram organizados e apresentados em quadro subdividido em categoria, uso, parte utilizada, modo de preparo e posologia para melhor compreensão e aproveitamento da pesquisa.

Dessa forma, o estudo esteve em conformidade com as normas e diretrizes bioéticas vigentes para ensaios envolvendo seres vivos: humanos (Resolução Nº 196/1996 e 301/2000 do Conselho Nacional de Saúde - CNS), (BRASIL, 2006, 2008). Este projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia - UFBA e recebeu parecer favorável.

 

RESULTADOS

Dos agricultores entrevistados, 16 eram do gênero feminino e 14 do gênero masculino. Esses foram distribuídos segundo sua faixa etária, que totalizaram 03 agricultores de até 29 anos de idade, 07 entre 30 e 39 anos, 04 entre 40 e 49 anos, 05 entre 50 e 59 anos, 06 entre 60 e 69 anos e 05 com idade acima de 70 anos.

Em relação à utilização da B. orellana L. cultivado, 28 agricultores relataram fazer o uso da planta na alimentação, 08 (26 %) o utilizam como medicamento, destes, 07 por meio das sementes e 03 pelas folhas, sendo que um entrevistado utiliza das duas maneiras. (Tabela). Não houve relatos de outros usos além do medicinal e alimentício.

Diante dos resultados encontrados, percebe-se o uso da planta com fins medicinais na maioria dos agricultores com mais de 70 anos, num total de 03 entre 05 agricultores. Na faixa etária entre 30 a 39 anos, 03 agricultores também relatam o uso medicinal do urucum, totalizando assim 07 entrevistados.

 

DISCUSSÃO

O uso do urucum relatado no questionário pode ser reafirmado por Silva & Andrade11 ao dizer que o conhecimento tradicional em comunidades se concentra nos mais velhos com risco de não ter o devido repasse aos mais jovens, devido à facilidade que os jovens têm de acesso de outros tipos de medicamentos, levando assim ao desinteresse em aprender e utilizar o conhecimento botânico tradicional. Os impactos das sociedades humanas modernas sobre as culturas tradicionais e habitats naturais causaram enormes perdas de biodiversidade. Povos que se dispersaram ou deslocaram, podem ter passado ao longo de centenas de gerações de observações e costumes através de tradição oral, outros, entretanto, perderam suas línguas e seu lugar na teia de relações, gerando um conhecimento etnobotânico novo e/ou modificado que permite acessar a história antiga daquela sociedade.12

A idade, portanto, mostrou-se como um fator importante no uso da B. orellana, e embora os dados possam sugerir a perda de conhecimento tradicional sobre plantas medicinais nas novas gerações conforme os resultados encontrados, esta afirmação segundo autores precisa ser vista com cautela. De acordo Toledo & Barrera-Bassols,12 Voeks & Leoni13 e Hanazaki et al.,14 este fato pode estar relacionado ao maior o tempo de aquisição do conhecimento tradicional das pessoas mais idosas.

Os principais usos medicinais utilizados pelos agricultores foram como antitussígeno, antigripal e antilipêmico, mas também foram citados o uso como antiglicemiante, para o tratamento de anemias, bronquites e gastrites (Tabela). Tais usos são corroborados por Dequigiovanni.15 Outros autores relatam o uso do urucum de formas diferentes das encontradas neste estudo, como medicação estomáquica, tonificante do aparelho gastrointestinal, antidiarreica e antitérmica, bem como para o tratamento caseiro das palpitações do coração, crises de asma e coqueluche.16 Também é descrito na literatura que os corantes de B. orellana apresentam atividade antimicrobiana17 e auxiliam na redução de glicose e colesterol do sangue.18-19 Outras atividades farmacológicas são relatadas para o urucum, como anti-oxidante,20 anti-virais,21 hipotensor22 e hiperglicemiante.23-24 Estudos realizados na região sul da Bahia também relatam o uso da B. orellana com fins medicinais, principalmente devido ao fato de serem plantas cultivadas e encontradas com facilidade nas feiras livres, com custo baixo.25

Acerca do modo de preparo do medicamento, 02 agricultores descreveram o uso em infusão, 02 utilizam a decocção e 05 fervem a semente com leite. Apenas um dos entrevistados descreveu duas formas diferentes de preparo, a depender da parte da planta utilizada. Estes métodos também são encontrados na literatura, onde segundo Neto26 o chá das sementes de B. orellana é usado nos problemas cardíacos e problemas circulatórios, e também como anti-hipertensivo e alívio do cansaço.5 Também é observado em um estudo o uso de sementes de urucum com fins adstringentes, febrífugo, hipoglicemiante e para tratamento de gonorréia, além do uso da infusão de folhas e raízes na epilepsia, disenteria, febre e icterícia e em Bangladesh o uso em diarréia, insônia e doenças na pele.27

Agricultores descreveram o uso de decocções de sementes de urucum no leite, porém em artigos utilizados neste trabalho são referenciados usos de infusões aquosas.27,28 A quantidade de fenóis totais extraídos das folhas e sementes de urucum depende da relação solvente/material vegetal,10 e este fato pode contribuir para o uso tradicional de decocções no leite devido à lipossolubilidade da bixina. O uso de leite de cabra para decocções de sementes de urucum mostrou efeito antidislipêmico eficaz em coelhos em estudos já realizados.20

Dentre as utilidades relatadas para a B. orellana, a alimentícia foi a que teve maior destaque. Esse uso é muito comum principalmente na região nordeste do país, pois a semente da planta produz um dos corantes naturais mais utilizados mundialmente, não só na indústria alimentícia, mas também na têxtil, de tintas e cosmética, na produção de maquiagem e filtros solares. Isso deve-se ao fato do corante não ter toxicidade e não alterar os valores nutricionais do alimento,28 sendo assim, um dos poucos aceitos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O pigmento vermelho presente em grande quantidade nas sementes de B. orellana é o carotenóide bixina, a principal substância responsável pelas características da semente, sendo a concentração dessa substância o que dá o valor comercial ao urucum. A bixina pertence à classe de apocarotenóides naturais, contém uma cadeia de 25 carbonos e tem a fórmula molecular C25H30O4 e peso molecular 394,51, possuindo um grupo carboxílico e um grupo metil éster nas pontas de suas cadeias. A bixina, durante a extração, se transforma em seu isômero transisobixina, e através da saponificação se transforma em norbixina, compostos estes que também são encontrados naturalmente nas sementes, além de outros como beta-caroteno, cryptoxantina, luteína, orelina, bixeína, bixol, ácido salicílico, treonina, triptofano e fenilalanina.28 Ainda no ramo alimentício, a diferença de solubilidade entre a bixina lipossolúvel e a norbixina hidrossolúvel é o fator determinante para seleção da forma de uso de sementes de urucum para corar derivados de leite como manteiga e queijos, além de pudins e sorvetes.29

O grande valor comercial do urucum se deve, além da sua substância colorante, também ao fato de ser uma rica fonte destes fitoquímicos, o que está relacionado com as atividades farmacológicas que incluem atividades hipoglicemiante, antibacteriana, antifúngica, antioxidante, antiinflamatória, anticâncer, aumento da motilidade gastrointestinal, atividades neurofarmacológicas, anticonvulsivantes, analgésicas e antidiarreicas.27

Conclui-se que faz parte da cultura popular entre os agricultores do extremo sul baiano o uso medicinal da B. orellana L, além do uso frequente na culinária. As indicações terapêuticas relatadas foram antitussígeno, antigripal e antilipêmico, antiglicemiante, para o tratamento de anemias, bronquites e gastrites, fatos estes de extrema importância como sugestões para o desenvolvimento de novas pesquisas a fim de testar efeitos farmacológicos da B. orellana, levando-se em consideração o conhecimento tradicional da comunidade estudada e a facilidade do cultivo e comercialização do urucum na região.

 

Agradecimentos

Luiz Alberto Mattos Silva, curador do Herbário da Universidade Estadual de Santa Cruz, responsável pela identificação da Bixa orellana L. e a bióloga Núbia Regina Santos, pela contribuição para o encaminhamento da exsicata.


Conflicto de intereses

Los autores plantean que no tienen conflicto de intereses.

 

REFERÊNCIAS

1. Leite JPV. Fitoterapia: Bases Científicas e Tecnológicas. São Paulo, Atheneu. 2009.

2. Alvim NAT, Ferreira MDA, Cabral IE, Almeida Filho AJ. O uso de plantas medicinais como recurso terapêutico: das influências da formação profissional às implicações éticas e legais da sua aplicabilidade. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2006;14(3):316-323.

3. Messias MCTB, Menegatto MF, Prado ACC, Santos BR, Guimarães MFM. Uso popular de plantas medicinais e perfil socioeconômico dos usuários: um estudo em área urbana em Ouro Preto, MG, Brasil. Rev Bras Pl Med. 2015;17(1):76-104.

4. Ferreira VF, Pinto AC. A fitoterapia no mundo atual. Química Nova. 2010;33(9): 1829.

5. Moreira RCT, Costa LCB, Costa RCS, Rocha EA. Abordagem Etnobotânica acerca do Uso de Plantas Medicinais na Vila Cachoeira, Ilhéus, Bahia, Brasil. Acta Farm. Bonaerense. 2002;21(3):205-211.

6. Fabri EG, Teramoto JRS. Urucum: fonte de corantes naturais. Hortic Bras. 2015;33(1):140.

7. Santos BMD. Qualidade dos coloríficos de urucum produzidos e comercializados no estado da Paraíba. [Trabalho de conclusão de curso]. Universidade Federal da Paraíba; 2016.

8. Carvalho PR. Annatto: technological advances and perspectives. Archivos Latinoamericanos de Nutrición. Guatemala. 1999;49(3):71-73.

9. Lorenzi H. Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas nativas do Brasil. Instituto Plantarum, São Paulo. 2008;1(5):80.

10. Sepúlveda Ricón CT, Gómez GLC, Montoya JEZ. Extracción de compuestos fenólicos y actividad antioxidante de hojas de Bixa orellana L. (achiote). Rev Cubana Plant Medic. 2016;21(2):133-44.

11. Da Silva VA, Andrade LHC. O significado cultural das espécies botânicas entre indígenas de Pernambuco: o caso Xucuru. Biotemas, Florianópolis. 2004;17(1):79-94.

12. Toledo VM, Barrera-Bassols N. A etnoecologia: uma ciência pós-normal que estuda as sabedorias tradicionais. Desenvolvimento e Meio ambiente. 2009;(20):31-45.

13. Voeks RA, Leony A. Forgetting the forest: Assessing medicinal plant erosion in Eastern Brazil. Economic Botany. 2004;58(1):294-306.

14. Hanazaki N, Tamashiro JY, Leitão-Filho HF, Begossi A. Diversity of plant uses in two Caiçara communities from the Atlantic Forest coast, Brazil. Biodiversity and Conservation. 2000;9(5):597-615.

15. Dequigiovanni G. Desenvolvimento de locos de microssatélite para a caracterização da diversidade genética de acessos de urucum (Bixa orellana L.) [Tese de Doutorado]. Universidade de São Paulo; 2012.

16. Franco CFO, Fabri EG, Barreiro NM, Manfiolli MH, Harder MNC, Rucker NCA. Urucum: sistemas de produção para o Brasil. EMEPA, João Pessoa. 2018;1(2):112.

17. Coelho AMSP, Silva GA, Vieira OMC, Chavasco JK. Atividade antimicrobiana de Bixa orellana L. (Urucum). Lecta, Bragança Paulista. 2003;21(1/2):47-54.

18. McGonigle KEM, McCracken KJ. Study on the effects of annatto ( Bixa orellana) and Yucca schidegera on cholesterol content and yolk colour. British Poultry Science, Edinburgh. 2002;43:41-42.

19. Cecil RLF, Goldman L, Ausiello D. Tratado de Medicina Interna. 22 ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2005.

20. Lima LRP, Oliveira TT, Nagem TJ, Pinto AS, Stringheta PC, Silva JFB, et al. Bixina, norbixina e quercetina e seus efeitos no metabolismo lipídico de coelhos. Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science, São Paulo. 2001;38(4):196-200.

21. Cáceres A, Menéndez H, Menéndez E, Cohobón E, Samoyoa BE, Jauregui E, et al. Antigonorrhoeal activity of plants used in Guatemala for the treatment of sexually transmitted diseases. Journal of Ethnopharmacology. 1995;48(2):85-88.

22. Rodrigues JPF. Análise de isoenzimas em progênies de meio-irmãos de urucum (Bixa orellana L). Dissertação de Mestrado em Ciência Florestal. Universidade Federal de Viçosa; 1995.

23. Morrison EY, Smith Richardson S, West M, Brooks SHE, Pascoe K, Flectcher C. Toxicity of the hyperglycaemic-inducing extract of the annatto (Bixa orellana) in the dog. West Indian Medical Journal, Kingston. 1987;36(2):99-103.

24. Thompson HJ. Isolation, purification and identification of the hyperglycaemic principle of the annatto (Bixa orellana). [Tese de Doutorado]. University of the West Indies; 1990.

25. Oliveira AE, Araújo DL, Rebouças TNH, Bomfim MP, José ARS. Levantamento do uso de plantas medicinais pela comunidade acadêmica da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Horticultura Brasileira. 2003;21(2). Disponível em: http://www.abhorticultura.com.br/biblioteca/arquivos/Download/biblioteca/pmfg5053c.pdf .

26. Neto GG. O saber tradicional pantaneiro: as plantas medicinais e a educação ambiental. Rev. eletrônica Mestr. Educ. Ambient.2016;17:71-89.

27. Shilpi JA, Taufiq-Ur-Rahman M, Alam MS, Sadhu SK, Seidel V. Preliminary pharmacological screening of Bixa orellana L. leaves. Journal of Ethnopharmacology. 2006;108(2):264-71.

28. Vilar DA, Vilar MSA, Moura TFAL, Raffin FN, Oliveira MR, Franco CFO, et al. Traditional uses, chemical constituents, and biological activities of Bixa orellana L.: a review. The Scientific World Journal. 2014;2014:1-11.

29. Mala KS, Rao PP, Prabhavathy MB, Satyanarayana A. Studies on application of annatto (Bixa orellana L.) dye formulations in dairy products. Journal of food science and technology. 2015;52(2):912-919.

 

 

Recibido: 19/09/2017
Aprobado: 21/06/2018

 

 

Luciane Manganelli. Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Brasil. Correo electrónico: luciane.manganelli@cpf.ufsb.edu.br





Copyright (c) 2019 Luciane Manganelli, Yago Soares Fonseca, Natanni Amaral Ledo, Lucas Monteiro Barbosa, Grasiely Faccin Borges, Gabriela Alves Ramos, Bruna Alves da Silva

Licencia de Creative Commons
Este obra está bajo una licencia de Creative Commons Reconocimiento-NoComercial 4.0 Internacional.