Levantamento etnobotânico de Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek em uma comunidade rural do Sudoeste do Paraná, Brasil

ARTÍCULO ORIGINAL

 

Levantamento etnobotânico de Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek em uma comunidade rural do Sudoeste do Paraná, Brasil

 

Estudio etnobotánico de Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek en una comunidad rural en el Sudoeste de Paraná, Brasil

 

Ethnobotanical survey of Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek in a rural community in the Southwest of Paraná, Brazil

 

 

Amanda Pacheco Cardoso Moura1*
Vanessa Padilha Salla1
Daniela Macedo de Lima1*
Daniele Fernanda Zulian2

1Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Brazil.
2Universidade do Estado de São Paulo (UNESP). Brazil.

 

 


RESUMO

Introdução: Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek pertence à família Celastraceae e é nativa do Brasil, distribuindo-se principalmente pelo Sul do país. A utilização de plantas medicinais entre a população brasileira é extremamente comum e os estudos visando informações sobre usos e conhecimentos populares são de grande importância. O baixo custo do emprego da medicina popular estimula a prática de plantas medicinais na rede pública de saúde, destinadas, principalmente, às populações carentes, sendo esse um hábito muito comum com a espécie M. ilicifolia.
Objetivo: Realizar um levantamento etnobotânico de espécies com potencial medicinal na comunidade rural São Cristóvão, localizada no município de Dois Vizinhos, região Sudoeste do Paraná.
Métodos: Para a coleta de dados foram visitadas 19 propriedades dessa comunidade, entre os meses de maio a julho de 2011. Utilizou-se da pesquisa quantitativa como ferramenta para realização do trabalho, por meio da elaboração de um questionário contendo 13 questões.
Resultados: Verificou-se que, de todas as propriedades visitadas, 70,58 % das famílias possuem a M. ilicifolia sendo cultivada em quintal ou não. Em relação à presença de outras espécies medicinais, 89,47 % das famílias dispõem de plantas fitoterápicas em sua propriedade, totalizando 37 espécies, pertencentes a 35 gêneros e distribuídas em 20 famílias.
Conclusão: Conclui-se que, assim como M. ilicifolia, diversas espécies medicinais são cultivadas pelos entrevistados, mostrando como este hábito é popular na região. Contudo, constatou-se que população não utiliza as plantas medicinais como meio de incrementar a renda familiar.

Palavras-chave: Celastraceae; etnobotânica; plantas medicinais; propriedades fitoterápicas; uso popular.


RESUMEN

Introducción: Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek pertenece a la familia Celastraceae. Esta planta es originaria de Brasil y crece principalmente en el sur del país. La utilización de plantas medicinales entre la población brasileña es extremadamente común y los estudios basados en las informaciones sobre sus usos y los conocimientos populares son de gran importancia. El bajo costo de la medicina natural favorece la utilización de las plantas medicinales en la red de salud pública. Estas se destinan principalmente a las poblaciones carentes, lo cual constituye ya un hábito en el caso de la especie M. ilicifolia.
Objetivo: Realizar una encuesta etnobotánica sobre el uso de M. ilicifolia y otras especies con propiedades medicinales en la comunidad rural San Cristóbal situada en el municipio de Dois Vizinhos, región sudoeste del Paraná.
Métodos: Para recoger los datos se visitaron 19 casas en esta comunidad entre los meses de mayo a julio de 2011. Se realizó un estudio cuantitativo para llevar a cabo el trabajo y se elaboró un cuestionario de 13 preguntas.
Resultados: Se verificó que el 70,58 % de todas las casas visitadas cultiva M. ilicifolia en el patio o en plantíos. En cuanto a otras especies, el 89,47 % de las familias cultiva plantas medicinales en su propiedad, para un total de 37 especies pertenecientes a 35 géneros y distribuidas en 20 familias.
Conclusiones: Se concluyó que los entrevistados cultivan diversas especies medicinales, incluso M. ilicifolia, y quedó demostrado este hábito popular en la región. Sin embargo, se constató que la población no utiliza las plantas medicinales como medio para incrementar la renta familiar.

Palabras clave: Celastraceae; etnobotánica; plantas medicinales; propriedades fitoterápicas; uso popular.


ABSTRACT

Introduction: Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek belongs to the Celastraceae family. Native to Brazil, this plant grows mainly in the south of the country. Use of medicinal plants is very common in Brazil, and studies based on data about their popular use and knowledge are of great interest. The low cost of natural medicine stimulates the use of medicinal plants in the public health network. These are mainly destined for poor populations, which has become common practice in the case of the species M. ilicifolia.
Objective: Conduct an ethnobotanical survey about the use of M. ilicifolia and other species with medicinal properties in the rural community of São Cristóvão, municipality of Dois Vizinhos, in the southwest region of the state of Paraná.
Methods: Data were obtained from visits to 19 households in the community from May to July 2011. Quantitative analysis was performed and a thirteen-item questionnaire was developed.
Results: It was found that in 70.58 % of the households visited M. ilicifolia was grown either in the backyard or in nearby land plots. Medicinal plants are grown by 89.47 % of the households. These include 37 species from 35 genera and 20 families.
Conclusions: It was concluded that respondents grow a variety of medicinal species, including M. ilicifolia. This habit was found to be common in the region. However, it was observed that medicinal plants are not used as a source of family income.

Key words: Celastraceae; ethnobotany; medicinal plants, phytotherapeutic properties; popular use.


 

 

INTRODUÇÃO

O Brasil possui uma das maiores biodiversidades do planeta, associada a uma rica diversidade cultural e étnica, com valioso conhecimento sobre o uso de plantas medicinais. Isto demonstra seu potencial para o desenvolvimento em tecnologias apropriadas e terapêuticas.1 O uso de plantas medicinais entre a população brasileira é extremamente comum e antigo, sendo repassada através de gerações,2 portanto, estudos etnobotânicos resgatam o conhecimento popular.

Existe um grande número de medicamentos desenvolvidos a partir do conhecimento popular de comunidades tradicionais. A utilização de extratos de plantas e substâncias ativas servem de base para a fabricação de inúmeros medicamentos.1 Das 252 drogas que são consideradas essenciais e básicas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em torno de 11 % são originárias de plantas.3

A partir disto, nota-se a importância da comercialização de plantas medicinais, porém, o mercado é desorganizado e há falta de informações. Estima-se que o mercado de fitoterápicos, movimente em torno de R$ 1 bilhão/ano.4 Com relação à matéria-prima, os dados são escassos e a comercialização ocorre normalmente por meio de raizeiros, ervateiros e extrativistas.5

O baixo custo do emprego da medicina popular estimula o uso de plantas medicinais na rede pública de saúde, destinadas principalmente às populações carentes, e a espécie Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek é utilizada para o tratamento de doenças como úlceras, gastrite e azia.(6) Além disso, a espécie possui propriedades laxantes, diuréticas, digestivas e antissépticas.7

M. ilicifolia , popularmente conhecida como espinheira-santa, cancerosa, erva-santa e espinho de Deus, pertence à família Celastraceae, é nativa do Brasil e distribui-se pelo sul do país, nas matas de araucária, sub-bosques e capões. Também pode ser encontrada na Argentina, Uruguai e Paraguai.8 A principal característica morfológica são as folhas margeadas por espinhos pouco rígidos. Possui porte arbustivo chegando a cinco metros de altura, copa globosa, folhas simples e frutos deiscentes de coloração avermelhada.(1) Existem espécies adulterantes, que são comercializadas como M. ilicifolia por possuírem uma morfologia foliar parecida. Estas espécies são: Soraceae bomplandii (Baill.) Burger, Lanj. & W. Boer (mata-olho) e Zollernia ilicifolia Vog. (Falsa-espinheira-santa).9

Diante do exposto, o objetivo deste trabalho foi realizar o levantamento etnobotânico de M. ilicifolia e de outras espécies com potencial medicinal entre moradores da comunidade rural São Cristóvão, município de Dois Vizinhos, região Sudoeste do Paraná, Brasil.

 

MÉTODOS

Área de estudo

O presente trabalho foi realizado na comunidade rural São Cristóvão, localizada no município de Dois Vizinhos - PR. Segundo a Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-PR), a comunidade é formada por aproximadamente 40 famílias.

O município de Dois Vizinhos localiza-se na região Sudoeste do estado do Paraná. Apresenta uma área territorial de 418,64 km 2 e população de 36,179 habitantes, onde 28,095 residem em área urbana e 8,084 em área rural.10

O clima da região é subtropical úmido mesotérmico (Cfa) com chuvas bem distribuídas durante o ano e verões quentes. A região registra temperatura média anual de 19 °C e precipitação pluviométrica média de 2.025 mm.11 O solo é classificado como Latossolo Vermelho Distroférrico Típico.12 O bioma da região é a Mata Atlântica, sendo encontrado um ecótono entre a Floresta Ombrófila Mista (FOM) e a Floresta Estacional Semidecidual (FES).13

Coleta de dados

Foram visitadas 19 propriedades da comunidade São Cristóvão, entre os meses de maio a julho de 2011. Utilizou-se da pesquisa quantitativa como ferramenta para realização do trabalho, por meio da aplicação de um questionário.

Este questionário continha cabeçalho com informações sobre idade e profissão dos entrevistados e de 13 perguntas, das quais oito eram de múltipla escolha e cinco questões abertas. As perguntas realizadas foram:

1. Você conhece a planta medicinal M. ilicifolia (espinheira santa, cancorosa, espinheira-divina ou maiteno)?

2. Em sua propriedade existem plantas de M. ilicifolia?

3. As plantas de M. ilicifolia existentes em sua propriedade são de áreas oriundas de plantios sistemáticos, plantios não sistemáticos (barrancos, beira de cercas, caminhos, etc.) ou extraídas da mata nativa?

4. Você sabe da existência de M. ilicifolia verdadeira e falsa?

5. Você saberia diferenciar M. ilicifolia verdadeira da falsa?

6. Conhece suas propriedades medicinais?

7. Que partes da planta você utiliza: folhas, ramos, flores, outras?

8. Você realiza coleta de M. ilicifolia em áreas de Mata Nativa?

9. Como costuma consumi-la, através de infusão (chá), decocção ou de outra maneira?

10. Para o tratamento de que doenças costuma utilizá-la?

11. Em sua opinião, existe benefício em cultivar a M. ilicifolia?

12. Qual seria a maior vantagem em se cultivar a M. ilicifolia?

13. Em sua propriedade são cultivadas outras espécies de plantas medicinais? Quais?

Em janeiro de 2012, todas as propriedades foram visitadas novamente para a coleta das espécies citadas nas entrevistas. A coleta foi acompanhada pelo entrevistado, o qual informou o nome popular de cada espécie utilizada. Após coletadas, estas espécies foram herborizadas, identificadas e incorporadas ao Herbário (DVCB) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Câmpus Dois Vizinhos (UTFPR-DV). A identificação botânica foi realizada por uma especialista e também com o apoio de literatura. A espécie M. ilicifolia foi depositada no mesmo Herbário (voucher DVPR-1053).

As espécies coletadas foram classificadas de acordo com a família, nome científico, nome popular, origem (nativa do país ou exótica) e voucher do herbário. Para estas espécies foi calculada a frequência de citação. Os questionários foram avaliados e os resultados apresentados sob a forma de gráficos.

 

RESULTADOS

A maioria dos entrevistados (31,58 %) apresentou idade entre 51 e 61 anos. As classes com menor representação (10,53 %) foram entre 31 a 41 anos e 61 a 71 anos. Quanto à profissão, constatou-se que a maioria das pessoas entrevistadas era composta por donas de casa (36,84 %), agricultores (21,05 %), estudante e comerciante (10,53 % cada). As profissões cozinheira, suinocultor e eletricista apareceram com 5,26 % cada.

A primeira questão referiu-se ao conhecimento dos moradores da comunidade quanto à existência da M. ilicifolia. Os resultados mostraram que a maioria dos entrevistados possuía conhecimento sobre a espécie (89,47 %) (Fig. 1A).

 

Na questão dois indagou-se sobre a existência da espécie na propriedade visitada e 70,58 % dos entrevistados relataram a presença da mesma em sua propriedade (Fig. 1B).

A terceira questão buscava saber qual a origem da M. ilicifolia na propriedade. Os resultados mostraram que nenhum dos entrevistados possuía plantios sistemáticos. Porém, 25 % deles confirmou a ocorrência desta em mata nativa, enquanto os outros 25 % informaram a existência tanto em mata nativa quanto em plantios não sistemáticos e 50 % disseram possuí-la apenas em plantios não sistemáticos (Fig. 2A).

A quarta questão, referiu-se ao conhecimento quanto à existência de espécies de M. ilicifolia consideradas falsas ou adulterantes. Aproximadamente 52,94 % dos entrevistados demonstraram não conhece-las (Fig. 2B).

A questão cinco, indagou sobre o conhecimento dos participantes a respeito da diferenciação das espécies verdadeiras e falsas. Dos entrevistados que afirmaram saber sobre a existência de espécies consideradas falsas, 64,70 % afirmaram saber diferenciar as duas espécies (Fig. 3A).

Com relação às questões seis e sete, não foram confeccionados gráficos, já que apresentaram uma porcentagem de 100 %.

A questão seis indagava se conheciam as propriedades medicinais da M. ilicifolia. Dentre os entrevistados (questão 1), 89,47 % que afirmaram conhecer a espécie (Fig. 1A), todos tinham conhecimento de suas propriedades, demonstrando popularidade. A questão sete indagou sobre as partes utilizadas das plantas, tendo como opções: folhas, ramos, flores e outras. Constatou-se que 100% dos entrevistados utilizavam as folhas para consumo.

A questão oito abordou sobre a coleta de espécies em mata nativa. Dos entrevistados que utilizavam a planta, 11,76 % afirmou coletar a espécie em mata nativa (Fig. 3B).

A questão nove referia-se ao modo de consumo da espécie. Dos entrevistados, 56,25% consumia por meio da infusão, 18,75 % utilizavam na forma de adição das folhas ao chimarrão e 25% utilizavam tanto em infusão quanto no chimarrão (Fig. 3C).

A pergunta dez questionou sobre a utilização da M. ilicifolia no tratamento de doenças. Dos entrevistados, 57,14 % utilizavam para problemas de rins, fígado e estômago, 21,43 % empregavam em tratamentos para pressão, e agrupados em outros (21,43 %) foram citados os usos contra dor de cabeça, reumatismo, dores na coluna e para emagrecimento (Fig. 4A).

Na questão onze buscou-se a opinião dos entrevistados sobre as vantagens de cultivar M. ilicifolia. Dentre os participantes, 76,47 % confirmaram que há vantagens em cultivá-la (Fig. 4B). Na questão doze, indagou-se qual seria a vantagem de se cultivar a M. ilicifolia. Dentre os que consideravam vantajoso o cultivo, 84,62 % acreditavam que a vantagem estava nas propriedades medicinais da espécie e 15,38 % que era o menor custo para a obtenção da matéria-prima (Fig. 4C). Contudo, nenhum dos entrevistados mencionou a comercialização da espécie como vantagem.

A última pergunta questionava sobre as outras espécies medicinais que os entrevistados cultivavam em casa e quais seriam elas. Verificou-se que 89,47 % dos entrevistados possuíam outras plantas medicinais em sua propriedade (Fig. 4D).

Os nomes científicos, nomes populares, família, origem (nativa ou exótica) e hábitos das espécies citadas nessa última questão estão dispostos na Tabela. Os dezenove entrevistados citaram um total de 37 espécies, pertencentes a 35 gêneros e distribuídas em 20 famílias.

Tabela. Espécies citadas pelos entrevistados da comunidade rural São Cristóvão, Dois Vizinhos-PR
e suas respectivas características.

Nome Científico

Nome Popular

Família

E/N

FR (%)

Voucher

Achillea millefolium L.

pronto-alívio

Asteraceae

exótica

3,5

DVPR 1035

Achyrocline satureioides (Lam.) DC.

macela

Asteraceae

nativa

1,8

DVPR 1047

Aloe vera (L.) Brum. F.

babosa

Asphodelaceae

exótica

1,8

DVPR 1054

Aloysia citriodora Gómez Ortega & Palau

erva-cidreira

Verbenaceae

nativa

8,8

DVPR 1034

Alternanthera brasiliana (L.) Kuntze

terramicina

Amaranthaceae

nativa

1,8

DVPR 1049

Amaryllis sp.

amarilis

Amarylidaceae

1,8

DVPR 1245

Arctium minus (Hill) Bernh.

bardana

Asteraceae

exótica

1,8

DVPR 1056

Artemisia absinthium L.

losna

Asteraceae

exótica

3,5

DVPR 1041

Artemisia cf. alba

losna

Asteraceae

exótica

1,8

DVPR 1062

Baccharis trimera (Less) DC.

carqueja

Asteraceae

nativa

1,8

DVPR 1058

Campomanesia xanthocarpa O. Berg

guabiroba

Myrtaceae

nativa

1,8

DVPR 1064

Chamaesyce prostrata (Aiton) Small

quebra pedra

Euphorbiaceae

exótica

1,8

DVPR 1030

Chamomilla recutiva L.

camomila

Asteraceae

exótica

1,8

DVPR 1065

Cinnamomum zeylanicum Blume

canela

Lauraceae

exótica

1,8

DVPR 1048

Coriandrum cf sativum

coentro

Apiaceae

exótica

1,8

DVPR 1032

Cymbopogon citratos (DE) stapp

erva-cidreira

Poaceae

exótica

7,0

DVPR 1040

Equisetum hyemale L.

cavalinha

Equisetaceae

nativa

3,5

DVPR 1059

Eriobotrya japonica Lindl.

nêspera

Rosaceae

exótica

1,8

DVPR 1039

Eugenia uniflora L.

pitangueira

Myrtaceae

nativa

1,8

DVPR 1045

Ficus carica L.

figueira

Moraceae

exótica

1,8

DVPR 1052

Foeniculum vulgare Mill

erva-doce

Apiaceae

exótica

1,8

DVPR 1042

Mentha cf pulegium L.

poejo

Lamiaceae

exótica

1,8

DVPR 1051

Mentha sp.

hortelã

Lamiaceae

8,8

DVPR 1043

Mikania glomerata Spreng

guaco

Asteraceae

nativa

1,8

DVPR 1057

Plinia cauliflora Berg

jabuticabeira

Myrtaceae

nativa

1,8

DVPR 1055

Oncimum sp.

manjerona

Lamiaceae

1,8

DVPR 1038

Origanum vulgare L.

manjerona

Lamiaceae

exótica

7,0

DVPR 1061

Persea americana Mill.

abacateiro

Lauraceae

exótica

1,8

DVPR 1050

Petiveria alliacea L.

guiné

Phytolacaceae

nativa

1,8

DVPR 1033

Plantago major L.

touchagem

Plantaginaceae

exótica

1,8

DVPR 1031

Psidium guajava L.

goiabeira

Myrtaceae

nativa

1,8

DVPR 1046

Punica granatum L.

romanzeira

Lythraceae

exótica

1,8

DVPR 1044

Ruta graveolens L.

arruda

Rutaceae

exótica

1,8

DVPR 1060

Salvia sp.

salvia

Lamiaceae

7,0

DVPR 1029

Smilax brasiliensis Spreng

salsa-parrilha

Smilacaceae

nativa

1,8

DVPR 1037

Verbena litoralis Kunth

fel-da-terra

Verbenaceae

nativa

1,8

DVPR 1036

Zingiber officinale Roscoe

gengibre

Zingiberaceae

exótica

1,8

DVPR 1063

E = exótica; N = nativa; FR = frequência relativa em porcentagem.

 

O número de espécies nativas do Brasil14 utilizadas foi menor do que as de origem exótica (24) (Tabela). A família com maior número de representantes foi Asteraceae (oito espécies), seguida da família Lamiaceae (sete) e da família Myrtaceae (quatro). A família Apiaceae apresentou três espécies e as famílias Lauraceae, Rutaceae e Verbenaceae apresentaram duas espécies cada, respectivamente. As famílias restantes apresentaram apenas uma espécie.

 

DISCUSSÃO

Com a primeira questão, foi possível perceber o quanto a M. ilicifolia é difundida na região, uma vez que a maior parte dos entrevistados não só conhecia a espécie, como a possuía em suas propriedades, confirmando sua ocorrência em área de Floresta Ombrófila Mista e sua popularidade no sul do país.

As folhas e raízes da espécie eram utilizadas por tribos indígenas do sul do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, locais de ocorrência natural da espécie. Utilizada também, pelos mapuches, tribo indígena originária do Chile. O uso medicinal da espécie pode variar conforme a região. Na Argentina seu uso principal está relacionado ao seu poder antisséptico, antiasmático e vulnerário. No Paraguai, como agente abortivo. No Brasil seu principal uso está relacionado ao tratamento de enfermidades gástricas.7

A existência da espécie nas propriedades visitadas em plantios não sistemáticos pode ter ocorrido por meio da coleta de sementes em áreas de remanescentes florestais e posterior formação e plantio de mudas. Nas propriedades nas quais a espécie não foi detectada, este fato ocorreu devido à grande exploração dos remanescentes de florestas de araucária na região. O reflexo disso está na redução de áreas de florestas naturais contínuas e a formação de pequenos remanescentes florestais. Esse processo interfere nas condições do ambiente, diminuindo as populações e a probabilidade de persistência da biodiversidade.14

Com relação à origem de M. ilicifolia nas propriedades visitadas, os resultados demonstraram que na comunidade há predominância da espécie em locais que sofreram ação da intervenção humana, como barrancos e caminhos. Outra questão a ser considerada, é a ausência de informações técnicas adequadas a respeito do cultivo da espécie como forma de complementação da renda familiar. É necessário obter mais informações técnicas quanto às vantagens do cultivo da espécie nas propriedades, uma vez que permite aumentar a rentabilidade para o produtor. Na região metropolitana de Curitiba, os produtores tecnificados vendem seus produtos com valores entre R$7,00 à R$12,00/kg.15 Valores semelhantes foram relatados por Vitória et al.16 com preço praticado pelos produtores variava entre R$2,00 a R$12,00/kg.

Foi possível verificar a necessidade de criar algumas medidas de esclarecimento para a comunidade sobre as espécies adulterantes deM. ilicifolia. As espécies adulterantes mais comuns são S. bomplandii (mata-olho) e Z. ilicifolia (falsa-espinheira-santa). A primeira espécie apresenta nervura central em formato plano convexo e ambas possuem látex.9 Uma das principais dificuldades encontradas pelos comerciantes da espécie é a comercialização de adulterantes. Ouso indevido de fitoterápicos poderá não solucionar os problemas desejados e acarretar efeitos adversos ao organismo humano. Dentre as espécies adulterantes de M. ilicifolia, Z. ilicifolia não deve ser utilizada como medicamento fitoterápico, por apresentar efeitos tóxicos e causar mortalidade em camundongos.17

Em conversa com os entrevistados, a maioria disse saber diferenciar as espécies, devido à folha das espécies adulterantes serem menores. Porém, vale ressaltar que, o tamanho da folha não é um bom indicativo para identificação de espécies. O menor tamanho citado pode estar relacionado a outros fatores, como por exemplo, deficiência nutricional ou intensidade de luz a qual a planta está exposta.

A atividade extrativista da espécie não é popular na região, demonstrando a ciência dos entrevistados quanto à ilegalidade dessa ação. Porém, uma fração considerada significativa da coleta comercial de M. ilicifolia ainda é feita por meio do extrativismo, pois o material cultivado ainda não supre a demanda. Isto propicia um produto de menor qualidade, pois, não apresenta controle fitossanitário. Outro ponto é o desaparecimento da espécie das áreas nativas, sendo esta considerada prioritária pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) em projetos de manejo e conservação de espécies.18

A respeito do modo de consumo da espécie, os resultados mostraram a popularidade do uso das folhas em meio de infusão, método mais utilizado e recomendado principalmente para o preparo de folhas e flores.8 Com relação às partes utilizadas de M. ilicifolia, foi possível observar o conhecimento popular quanto à utilização das folhas. A espécie é produtora de vários metabólitos, como terpenóides (friedelina, friedelan-3-ol, maitenina, cangoroninas, tripterpenos, taninos e polifenóis), glicosídeos, glicopeptídeos e maitansinoides (maitansina, maitanprina e maitanbutina)19,20 sendo o marcador farmacopeico a epicatequina.21 Destacou-se também, a utilização das folhas no chimarrão. A mistura da M. ilicifolia à erva-mate é comum para o combate da azia e gastrites, tanto que algumas empresas realizam comercialização dessa mistura em grande escala.8

A maior parte dos entrevistados utilizava M. ilicifolia para problemas relacionados aos rins, fígado e estômago. As informações constantes na literatura corroboram a utilização e eficácia da espécie para tratamentos estomacais como úlcera e gastrite, além de suas ações anti-inflamatória e cicatrizante,1 confirmando os conhecimentos da população desta comunidade.

Os moradores da Comunidade São Cristóvão concordaram que é vantajoso cultivar M. ilicifolia, devido às suas propriedades medicinais, no entanto, nenhum deles citou a comercialização da espécie como exemplo de vantagem. O mercado de vendas dos fitoterápicos no varejo está crescendo, porém, ainda encontra-se pouco estruturado, sem dados oficiais sobre o volume comercializado por espécie. Estima-se que o volume de espécies vendidas como espinheira- santa é de 160 toneladas/ano e que 40 % desse volume é composto por outras espécies. Sugere-se que a partir do momento em que houver uma cadeia produtiva estabilizada, o interesse pelo cultivo e comercialização da espécie aumente. Para isso, o incentivo de plantios comerciais da espécie, juntamente com auxílio técnico por meio de órgãos de extensão e o beneficiamento e comercialização do produto (folhas), poderiam auxiliar na estruturação da cadeia produtiva da espécie.22

Devido à uma cadeia produtiva pouco estável, produtores de M. ilicifolia da região de Curitiba apontaram como principais dificuldades a variação do preço no mercado, a falta de controle de qualidade, o custo do frete para o escoamento do produto e a comercialização das espécies falsas.15

O número de espécies listadas no presente trabalho foi pequeno e este resultado pode estar associado a vários fatores, como a pouca área de mata nativa na região, diminuindo com isso a possibilidade de uso representantes nativas com potencial medicinal. Silva et al.,23 em estudos etnobotânicos, entrevistaram 100 pessoas, sendo que estas citaram 62 espécies utilizadas como medicinais na comunidade Sítio Nazaré, município de Milagres-CE. Na região de mata atlântica, a utilização de produtos florestais não é comum e isso acarreta na perda da importância da flora e do conhecimento tradicional das espécies.24

Um ponto importante observado durante a pesquisa é a diminuição de hortas caseiras com plantas medicinais nas propriedades. A maioria dos entrevistados possuía as espécies citadas em plantios não sistemáticos. Este fato poderia estar associado às mudanças culturais impostas na região de estudo, principalmente a dedicação ao cultivo de culturas anuais. O conhecimento tradicional, referente às plantas medicinais, possui várias vias de influência, pois os seres humanos armazenam e processam informações que podem ser inerentes a sua natureza, além das informações disponíveis no ambiente, podendo ser incorporadas através da aprendizagem individual e da transmissão social.25

O uso de plantas medicinais é transmitido de pais para filhospela transmissão oral, fazendo parte da cultura popular.26 Esta prática pode contribuir com a conservação da diversidade biológica, das práticas extrativistas e manejo de recursos naturais, assim como auxiliar na seleção de plantas-alvo para investigações farmacológicas.27

No presente estudo a família Lamiaceae foi a segunda mais representada, enquanto na região de Matinhos - PR foi uma das famílias mais representadas.28

Nas condições em que o presente trabalho foi realizado, concluiu-se que a maioria dos entrevistados da Comunidade São Cristóvão conhecia e utilizava a espécie. Não há produção de M. ilicifolia em plantios sistemáticos, sendo esta originária de plantios não sistemáticos ou mata nativa. Os participantes da pesquisa consideraram o cultivo vantajoso, mas não reconheceram a comercialização como a maior vantagem para eles.

As folhas são as partes da planta mais consumidas e as formas de consumo são por meio de infusão ou no chimarrão. A maioria dos entrevistados possuía conhecimento sobre as propriedades medicinais da espécie, sendo mais citada a utilização contra problemas relacionados com os rins, fígado e estômago. Juntamente com M. ilicifolia, diversas espécies medicinais eram cultivadas, mostrando como este hábito é popular na região. Contudo, constatou-se a população não explora as plantas medicinais como meio de incrementar a renda familiar.


Agradecimentos

À Fundação Araucária pelo apoio financeiro para a realização do presente trabalho e à Professora Doutora Daniela Aparecida Estevan pelo auxílio na identificação dos materiais botânicos.


Conflicto de interesses

Os autores declaram não ter conflitos de interesses.

 

REFERÊNCIAS

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Recibido:25/5/2016.
Aprobado:18/5/2018.

 

Amanda Pacheco Cardoso Moura. Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Brazil. Correo electrónico: amandapmoura@gmail.com





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